Chegamos na caçamba do Wilson umas 18:00, com a ajuda dos amigos Daniel (Chera), Rafael (Hulk), Stephanie, Wenderson e Pai Ercir montamos tudo até umas 19:00.Ouvíamos Wilson cantando enquanto tomava banho e fazia barba atrás da caçamba (Era uma ocasião especial). Enquanto montávamos Carla e sua sogrona terminavam a macarronada:
Tudo montado, comida na mesa mas faltava o principal, os moradores de rua. Entrei no carro com o Wilson a procura dos moradores que ele havia chamado, e nos deparamos com um imprevisto ...o crack. Achamos quatro pessoas que o Wilson havia chamado nas proximidades do rio e embaixo do viaduto do cruzamento da Av. Lions com a Av. Lauro Gomes, todos sob o efeito da droga e cada um deu alguma desculpa para não ir, um deles disse que iria tomar banho e quando saiu notei que o Wilson estava bravo, perguntei o motivo "Ele disse que foi tomar banho, mas foi no caminho contrário de onde ele mora...ele foi é no morro buscar pedra".
Além deste viaduto paramos no viaduto Eng. Luis Meira e no viaduto do cruzamento da Prestes Maia com a Dom Jorge Marcos de Oliveira e conversamos com pelo menos 15 pessoas, todos usuários de crack. Me chamaram a atenção:
a) Pessoas de boa aparência e bom grau de instrução debaixo da ponte usando crack. Com certeza tinham família, mas passaram o natal alí.
b) Uma garota grávida e outra que mal conseguia falar por conta do efeito do crack
c) O respeito que nos receberam
d) Não ter convencido nenhum deles a passar o natal conosco
Próximo da igreja do Rudge Ramos, encontramos Cícero... Ele é presidiário e estava na rua por conta do induto de natal, ao aceitar ele disse convicto "Eu vou com vocês, se não depois eu acabo indo pra baixo daquela ponte e saindo muito louco fazendo besteira, passei alí e nenhum me ofereceu comida, só me ofereceram Pedra. Hoje eu não vou pra baixo daquela ponte ". Cícero foi preso ao roubar cabos de cobre, compraria crack com o dinheiro. Ele nos ajudou a convencer Elias, carroceiro que dormia na frente de um bar e que também perdeu tudo por causa do crack, agora tenta se reerguer coletando sucata.
No caminho vimos um homem bêbado sentado ao lado de uma padaria, disse que ele não iria pois era o tipo de bebado agressivo, Cícero disse "Para o carro aí, ele vai sim...vou conversar com ele", Cícero desceu, ouvimos um grito e ele voltou dizendo "Esse aí não vai não truta...pode ir que esse aí não vai não"
Voltamos para a caçamba e agora além do Wilson, tinhamos a companhia de Cícero, Elias, Daniel (Convidado do Wilson que decidiu aparecer), Joseane e seu marido:
Pai Ercir também saiu de carro mas não achou ninguém que quisesse participar. A única pessoa que encontrou, se recusou a ir pois não poderia levar sua garrafa de pinga para beber no local.
Estiveram por Lá o Bruno (Amigo que estava inclusive mal de saúde e fez questão de ir), o Daniel Chera e algumas crianças que não moravam na rua mas nos fizeram companhia:Não apareceram muitas pessoas mas as que foram eram pessoas especiais. Juntos comemos, demos risada, trocamos experiências, contamos e ouvimos histórias, algumas muito engraçadas outras nem tanto e por fim brindamos o natal.
Festa chegando ao fim, todos ajudando a arrumar as coisas. Com a comida que restou, conseguimos montar e embalar 24 refeições junto com 10 pratos de bolo e uns 5 refrigerantes. Todos nos ajudaram a desmontar as coisas e embalar a comida...Deixamos o Elias no local onde estava seu carrinho de sucata, ele estava preocupado com ele (Na rua é comum as pessoas roubarem o carrinho ou o material uma das outras).
Cícero nos acompannhou na distribuição das refeições e preparando a distribuição notamos nossa ingenuidade ao sermos advertidos quando sugerimos levar a melancia inteira ao pessoal que estava embaixo da ponte: "Qual o problema de levar inteira?" , "Se levarem inteira, eles vão vender a melancia e comprar pedra truta"...vivendo e aprendendo.
Ao chegar debaixo dos dois viadutos fomos bem recebidos e respeitados por todos. No primeiro viaduto Cícero pediu que largassem o cachimbo para pegar a refeição, ao voltar para o carro disse "O fulano vai pegar a comida com a droga na mão...ai não dá ne?!?!?! eu não aceito isso não" . No segundo não precisamos pedir, o pessoal caminhava até o carro pedia com educação, nos cumprimentava e agradecia pelo gesto.
Nos despedimos de Cícero e este foi um dos momentos mais emocionantes. Nós agradecemos por ele ter passado o natal conosco e nos ajudado, mas acima de tudo, pela escolha que tomou ao evitar o crack.
Antes de ir para casa, passamos na caçamba do Wilson para lhe entregar o rádio que lhe demos de presente:
Agradecemos a todos que ajudaram e desejamos a todos um feliz natal!!!
Carla e Robson

